Cida Reis pelas lentes grande angular

Cida Reis pelas lentes grande angular

 

Fui recebida com uma risada, logo após o latido dos cachorros. Já havia ouvido falar sobre Cida, mas nunca tinha parado para conhecê-la de perto. Antes mesmo que eu pudesse começar, ela iniciou uma entrevista reversa: quis saber de onde eu vinha, por que tinha escolhido conversar com ela. Me levou até o beiral da varanda e desenhou a geografia do bairro com a memória, demarcando os morros com as lembranças do passar dos anos.

Passei boa parte do tempo hipnotizada pelo jeito como ela contava os casos. Entre uma história e outra, nossas gargalhadas se encontravam. Quando finalmente perguntei como ela tinha descoberto o cinema, a resposta começou muito antes da primeira câmera.

Queria saber quando ela descobriu que mulheres como nós poderiam fazer arte, Que pedaço da vida privada se misturava com a pesquisa, o olhar, a captura, o filme. Perguntei a quanto tempo ela fazia filmes. Cida fez uma pausa antes de responder, como quem também se surpreendia com a própria trajetória.

 

"Interessante! Do meu início no audiovisual até hoje já se passaram 25 anos. Custou um pouco pra chegar, mas passou tão rápido. Quando comecei, o audiovisual em Belo Horizonte era formado por um núcleo pequeno de cineastas."

Ela riu outra vez.

"Eu não devo ter sido a primeira mulher negra a fazer cinema em Minas. Acho que teve tantas outras... só que talvez nunca tiveram a oportunidade de serem conhecidas."

 

Cida começou a me contar da sua carreira, pela sua ancestralidade. Como se falar de onde veio também fosse uma forma de iluminar quem ficou escondida antes dela. Ela é a mais velha de uma família de seis filhos de um  pai ferroviário e de uma mãe lavadeira, e se encheu de ternura ao contar:

 “Minha família foi muito boa pra mim. Meu pai, ele me empurrou muito, sabe ? ele tinha altas expectativas pra mim. Isso é muito bom como filha mais velha, como mulher.”

 “Eu me encaixei numa família muito bacana. O pessoal com cabeça boa, aberta. Isso vai contribuir com algumas coisas mesmo quando se tem medo."

 

Contou do pai que incentivou ela a tocar piano e tirar carteira. Da mãe que mesmo sem estudo,  quis que ela estudasse, com palavras bonitas pouco habituais para a época: 

 

“Vai ser dona da sua vida”

  

Ouvi atenta a tudo a, já sem tanta preocupação com as perguntas que tinha preparado. Gosto desse prato raso de self-service que é conhecer alguém. Posso ler sua biografia, assistir aos seus filmes, visitar uma página da Wikipédia, mas há sempre um pedaço que só aparece quando alguém decide narrar a própria vida. Imagino que ninguém passe 25 anos fazendo filmes sem que a própria vida acabe vazando para dentro deles. 

 

Cida me contou do racismo do período escolar. Do contraste de ter uma família que te coloca para frente e de todo um sistema que produz feridas e atrasos: 

 

“eu me lembro de uma professora, no quarto ano primário, que me falou assim “Aparecida você escreve muito bem”. No entanto, levou anos pra eu escutar isso de novo. Nas experiências de escrita dali pra frente, só fui podada. Houve todo um investimento para desconstruir uma pessoa que gostava de escrever. É doido o racismo na escola, ele causa traumas que se você não tiver oportunidade de desconstruí-lo, ele nunca cicatriza.”

 

Me contou ter sido no  grupo de jovens da igreja onde começou a cicatrizar aquelas feridas. Não porque ali estivesse o feminismo ou o movimento negro, mas porque um caminho levou ao outro: 

“Aquele buraco que eu achava que era só meu, não era só meu. Eu achava que eu era feia, burra, incompetente... e descobri que não. Era um projeto. Eu tava sofrendo junto com outras pessoas e coincidentemente éramos todas negras e negros. Mas a vida nos juntou pra vencer isso”

“É assim, de erros em erros a gente vai meio que sem saber qual é a estrada principal, vai meio que sendo empurrado pelas beiradas até chegar onde de fato você tem que estar mesmo.”

 

Então a conversa chegou à primeira televisão da casa. Enquanto falava dos primeiros filmes, Cida gesticulava como quem ainda organiza imagens invisíveis no ar. Às vezes parava a frase no meio, ria de si mesma, procurava uma data. Não parecia alguém repetindo uma história decorada. Parecia alguém revivendo.  

“Naquela época, Hollywood dominava a produção cinematográfica mundial. Eu e meus irmãos gostávamos de alugar os filmes que tinham atores negros... O que é lindo porque ajudou a construir uma autoimagem. Porque aqui no Brasil a gente não tinha nada disso. A gente até tinha alguns filmes com personagens negros só que não chegava pra gente de jeito nenhum. Na televisão, nas novelas não tinha mesmo nada disso. Eu adorava assistir filmes, só que eu nunca me vi nesse lugar fazendo filme, eu não imaginava.”

Cida descobriu o cinema, mas não porque estudou artes. O cinema apareceu mais tarde, quase como um desvio desses que ela dizia serem empurrados pelas beiradas. Formada em História, passou por diferentes trabalhos até chegar ao Centro de Referência do Audiovisual (CRAV), da Prefeitura de Belo Horizonte. Entrou para desenvolver uma pesquisa sobre religiosidade afro-brasileira e acabou sendo provocada pelo chefe a transformar aquela investigação em um filme.

Ela contou que foi ali que as peças da própria história começaram a se encaixar.

“A decisão de pesquisar a cultura afro-brasileira em Belo Horizonte na perspectiva da religiosidade foi porque era algo mais concreto, uma prática que agrupa pessoas comuns e que agrupa muita gente. A prática da religiosidade afro brasileira agrega o povo preto em termos quantitativos.  E foi nesse momento que eu comecei a me tornar cineasta. Quando eu tive essa oportunidade percebi a importância do movimento negro lá atrás e todo o meu processo de vida. Eu tinha a oportunidade de estar no cinema e eu iria aproveitar essa oportunidade pra ampliar, pra criar visibilidade pra gente. Visibilidade pras nossas histórias!”

 

Daí em diante, o bicho do cinema já tinha mordido Cida. Vieram os primeiros filmes: Salve Maria (2005), sobre as Irmandades do Rosário em Belo Horizonte, e Quilombos do Brasil. Eram filmes que já revelavam uma escolha: contar histórias pela perspectiva de personagens que quase nunca ocupavam o centro da narrativa.

Quando o documentário sobre os quilombos ficou pronto, vieram também as críticas.

"Uma das principais críticas que eu ouvi foi: 'Por que você não escutou o outro lado? Por que você só entrevistou os quilombolas? Por que não entrevistou os fazendeiros?' Eu falei: porque até agora a única história que era contada era a deles. Eu ia escutar isso pra quê? O que faltava era exatamente a perspectiva dos quilombolas. Porque essa perspectiva ninguém nunca se preocupou em ter."

A resposta veio sem indignação, quase como quem constata o óbvio. O cinema de Cida nunca foi apenas sobre filmar: era também sobre deslocar o ponto de vista.

Daí em diante, ela investiu em cursos, conheceu gente, escreveu, pesquisou e fez do cinema seu ofício. Enquanto me contava sobre uma oficina de roteiro em Cuba, desenhou uma mira com as mãos. Fechou um dos olhos, esticou os braços como quem apontava um estilingue para um alvo e repetiu as palavras de um dos professores. Não falava apenas da aula. Falava também comigo.

"Ele dizia uma coisa: presta atenção em vocês. Vocês são mulheres pretas. Na hora que forem fazer qualquer coisa, qualquer ação, mire bem naquilo que você quer atingir. Se prepare. Tenha muito claro o objetivo que você quer alcançar, porque você vai ter só uma chance. Se você não tem muita clareza do que quer, às vezes faz um negócio lindo, mas que faz lugar pra lugar nenhum."

Ela, então,  voltou a falar da televisão, dos filmes que assistia quando menina, das imagens que via e das que faltavam em  seu imaginário. As peças do quebra-cabeça pareciam finalmente encaixadas: a infância, o racismo, o movimento negro e cinema.

"Eu entrei pro audiovisual pra fazer isso. Assistir aos filmes sobre os negros norte-americanos era muito bom, porque ajudava a construir um imaginário sobre nós. Mas, aqui, a grande maioria dos personagens negros era pobre ou não tinha profundidade. Você não sabia de onde aquela pessoa vinha, se tinha mãe, pai, irmão. No fim da novela, ela também não tinha perspectiva de futuro. Eram personagens sem densidade. Era como se aquele personagem e uma cadeira fossem a mesma coisa."

Enquanto ela falava, ficou evidente que seus filmes não nasceram apenas do desejo de fazer cinema. Nasceram da urgência de devolver profundidade a personagens que, por muito tempo, foram reduzidos a figurantes da própria história.

Enquanto falava da televisão brasileira, Cida deixou de comentar apenas personagens e passou a pensar em quem os escreveu. Para ela, não é coincidência que tantas narrativas tenham insistido em representar pessoas negras pela violência, pela pobreza ou pela ausência de passado.

"Os grandes dramaturgos que a gente teve esses anos todos na televisão eram pessoas brancas, da classe média alta. Tinham uma vivência de que o mundo partia deles."

Fez uma pausa, como quem ainda procura entender a lógica dessa repetição.

"Por que bater sempre nesse lugar da tortura? Por que sempre nesse lugar? Existe um prazer ali, uma realização quase orgástica."

Não era apenas uma crítica aos personagens negros da dramaturgia brasileira. Era uma pergunta sobre quem teve o direito de imaginar o mundo, sobre quem ficou, durante tanto tempo, preso às imagens criadas pelos outros. A dramaturgia brasileira foi construída majoritariamente por homens e mulheres brancos de uma determinada classe. Por isso, os personagens negros quase sempre apareciam pela dor, pela tortura ou sem profundidade. Há uma crueldade nessa insistência em narrar o negro apenas por esse lugar.

Agora, vinte e cinco anos depois daquele primeiro filme, Cida continua escrevendo. Os roteiros se acumulam na gaveta. O desejo, agora, é a ficção. O que falta continua sendo o mesmo que faltava lá atrás: investimento para contar as histórias que quer contar. Segundo ela, atualmente em Belo Horizonte= centenas de novos cineastas se formam todos os anos. Há mais gente filmando, mais escolas de cinema, mais festivais, mas o dinheiro continua quase o mesmo 

"O cinema virou uma corrida. Tem muita gente fazendo filme e pouco recurso .Quando você depende dos editais, nem sempre pode contar a história que você quer. Você precisa contar a história que quem vai ler quer ouvir. Continuo quebrando pedra “

Entre um assunto e outro, ela contou da viagem à Cannes. Riu da própria surpresa de ter sido levada até lá.  Disse que ainda está aprendendo a receber os louros do próprio trabalho. Acabou de ser premiada pelo curta “Onde Está Você Agora?”, co-dirigido com Lívia Gaudêncio.

Depois de boas horas de conversa, antes de ir embora, Cida me contou ter voltado ao samba, agora se apresenta com quatro amigas no Coletivo Dociláré, e começou a se arriscar em composição. Ela falou disso com o mesmo entusiasmo de quem me mostrou o bairro na varanda ou de quem descreveu o primeiro filme. Pensei ser essa a imagem que vou guardar: alguém que nunca parece terminar uma trajetória, apenas começar outra. Há 25 anos fazendo cinema, agora recomeça também pelo samba.

 

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