O Programa Girls Act é uma iniciativa da AHF, AIDS HEALTHCARE FOUNDATION, um programa global que acontece em mais de 30 países e que capacita meninas e jovens mulheres para serem líderes. Por meio de mentoria, defesa de direitos e acesso a recursos, promove autoconfiança, combate o estigma
e inspira mudanças reais. Globalmente, os pilares do Girls Act são:
1.Prevenir a transmissão do HIV/ISTs
2. Apoiar meninas soropositivas para que continuem o tratamento
3. Reduzir gravidezes não planejadas
4. Manter as meninas na escola
No Brasil, o programa surge através do encontro entre a AHF Brasil, o Nzinga Coletivo de Mulheres Negras e o Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango, comunidade tradicional e afrobrasileira localizada no contexto urbano de Belo Horizonte .
Desse movimento e da busca por agir no presente de meninas para um futuro de direitos, se consolidou essa parceria. A aposta é em atuar no presente, para o alcance de um futuro digno para meninas e mulheres. Aqui, o Girls Act não é só um projeto. É encontro. É uma roda de conversa. É o acolhimento. É a virada de chave que acontece quando uma menina percebe que pode falar e que sua voz importa.
Com o desenho proposto para três anos de execução, a parceria se consolidou em março de 2024 e desde então o programa já realizou mais de 30 encontros no
território, alcançou direta e indiretamente mais de 200 meninas e mulheres negras e prioriza em todas as atividades a presença e protagonismo de mulheres negras.
Por ser realizado em um contexto quilombola, o programa se preocupou a adequar todos os materiais internacionais e linguagens de publicações para fazer sentido na realidade das meninas e os ganhos do projeto são nítidos ao perceber a evolução potente e visível uma vez que hoje meninas e mulheres ocupam espaços, articulam ações em suas comunidades, falam sobre saúde, direitos e futuro.
Uma das histórias que atravessam esse processo é a de uma jovem que, quando entrou no projeto, sentia uma dor enorme nos pés. Era uma dor constante, sem
diagnóstico, que limitava seus passos, literal e simbolicamente. Através do apoio à saúde oferecido pelo projeto, ela conseguiu realizar exames, teve acompanhamento e passou a cuidar de si com informação e suporte. Mas o cuidado não parou no
corpo.
Com o fortalecimento da autoestima e o incentivo contínuo, ela retomou os estudos.
Concluiu a escola, formou e agora sonha e planeja iniciar a faculdade de Enfermagem. Quer cuidar de outras pessoas que um dia cuidaram dela, está vendo
que isso é uma possibilidade e que é possível para ela.
Além do cuidado com a saúde física, o Programa coordenado por Ayana Odara, gestora pública e composto por Jéssica Isabel, psicóloga, Luiza da Iola, pedagoga, e Denise dos Santos, artista visual que apoia transversalmente todas as atividades, são realizadas oficinas mensais na comunidade onde todos os custos de alimentação para toda a comunidade são financiados, todos os deslocamentos das meninas e, quando necessário, de suas responsáveis são financiados. Através de oficinas realizadas pela própria equipe e por pessoas convidadas, são abordados temas como autoestima, saúde física e mental, segurança alimentar e formação
cultural. Foi realizada uma visita no território quilombola da Serra do Cipó, Quilombo do Açude, onde foi produzido o filme criado narrando a trajetória e narrativa de meninas e mulheres quilombolas
Estar entre pares, olhar para o entorno e mudar nossas realidades é o que move o Girls Act Brasil: meninas que chegam com dúvidas e saem com planos. Que aprendem sobre saúde sexual, sobre direitos, sobre prevenção, mas também aprendem sobre si mesmas.
Os anos do projeto permitiu acompanhar a formação humana das Meninas Manzo, como elas se nomeiam.
Nas palavras delas, foi uma oportunidade de criar redes e de se olharem mais, de potencializar suas expectativas e construir outras estratégias futuras. No fim, o que o Girls Act Brasil faz é simples e revolucionário ao mesmo tempo: ele lembra cada
menina de que ela é protagonista da própria história. E, quando uma menina muda,o mundo ao redor dela também muda.
Texto: Ayana Odara
Fotografias : Denise Santos