Intercâmbio entre quilombos e cuidado

Intercâmbio entre quilombos e cuidado

Entre os dias 29 e 31 de maio, mulheres do Quilombo do Açude, localizado em Jaboticatubas (MG), participaram de uma experiência transformadora no Instituto Quilombo Ilha, em Itaparica (BA). A atividade integrou as ações do Programa Agulha Puxa Linha – Justiça Econômica e Bem Viver das Mulheres de Quilombo, iniciativa desenvolvida pelo Nzinga – Coletivo de Mulheres Negras de Belo Horizonte, em parceria com a Fundação Banco do Brasil.

Mais do que uma viagem entre estados, o encontro representou uma oportunidade concreta de intercâmbio entre mulheres quilombolas de Minas Gerais e da Bahia. A convivência entre participantes do Quilombo do Açude e da Ilha de Vera Cruz possibilitou a troca de experiências sobre organização comunitária, modos de vida, ancestralidade, geração de renda, desafios enfrentados pelas mulheres e estratégias coletivas de fortalecimento dos territórios. Ao compartilhar histórias, saberes e perspectivas, as participantes construíram conexões que ultrapassam as fronteiras geográficas e fortalecem redes de apoio entre comunidades quilombolas.

Um dos momentos centrais da programação foi a realização do SPA³ – Saúde das Pretas, uma vivência voltada ao Bem Viver, ao autocuidado e ao fortalecimento psicossocial. As três mulheres do Quilombo do Açude juntaram-se a outras 14 mulheres da Ilha de Vera Cruz (BA), criando um espaço potente de encontro entre territórios, trajetórias e experiências. Ao longo dos três dias, o grupo compartilhou histórias, reflexões, práticas de cuidado e saberes ancestrais, fortalecendo vínculos e construindo uma rede de apoio baseada na escuta, no acolhimento e no reconhecimento mútuo.

As atividades foram conduzidas por uma equipe multidisciplinar comprometida com a valorização dos saberes afro-brasileiros e com a construção de práticas de cuidado que dialogam com as vivências e histórias das mulheres quilombolas. Ao longo da programação, foram desenvolvidas atividades voltadas à saúde emocional, autoestima, fortalecimento da identidade cultural, construção de redes de apoio e promoção do bem-estar.

Um dos momentos mais marcantes da experiência foi o reencontro das participantes com práticas ancestrais de cuidado presentes nas memórias familiares e comunitárias. Elementos como a pipoca e as águas de cheiro despertaram lembranças afetivas, sentimentos de pertencimento e reflexões sobre a continuidade dos saberes tradicionais como parte fundamental da saúde e da construção do Bem Viver.

“Foi emocionante testemunhar a conexão das participantes com práticas ancestrais muitas vezes presentes em suas memórias afetivas e culturais. A pipoca e as águas de cheiro despertaram lembranças, reflexões e sentimentos de acolhimento, demonstrando que os saberes tradicionais seguem vivos e são fundamentais para a construção de uma saúde integral e de um bem viver coletivo”, destacou Kelly Portella, da Yiaminas.

Ao final da vivência, os relatos compartilhados pelas participantes evidenciaram a profundidade dos impactos gerados pela experiência. Muitas mulheres destacaram a importância de fortalecer a autoestima, confiar mais em si mesmas, estabelecer limites saudáveis e reconhecer suas próprias necessidades.

“Aprendi que posso me ver primeiro.”

“Pretendo me valorizar mais e estar mais perto de mulheres como eu.”

“Acredito mais em mim. Eu sou capaz.”

“Aprendi que temos que pensar mais na gente e tirar algumas amarras que carregamos.”

“Uma das coisas que vou levar para a minha vivência diária é o autocuidado. Cuidar do corpo, da mente e do espírito.”

Os depoimentos também revelaram o desejo de compartilhar os aprendizados com outras mulheres e jovens de suas comunidades, ampliando os efeitos da experiência para além das participantes diretamente envolvidas.

O Programa Agulha Puxa Linha tem como objetivo fortalecer social, econômica e organizativamente mulheres dos territórios do Quilombo do Açude e da Ilha de Itaparica, promovendo autonomia, justiça econômica, valorização dos saberes tradicionais e defesa dos direitos humanos. Para isso, articula ações formativas, produtivas e psicossociais, integrando geração de renda, fortalecimento da identidade cultural, cuidado com o território, preservação ambiental e promoção da saúde emocional.

Ao apostar no Bem Viver como horizonte político e comunitário, o Programa reconhece que o fortalecimento das mulheres quilombolas passa também pelo direito ao cuidado, à escuta, ao descanso e à construção de redes de apoio. Nesse sentido, a experiência realizada em Itaparica reafirmou a potência dos encontros entre mulheres negras e quilombolas como espaços de reparação, aprendizagem, fortalecimento coletivo e construção de futuros mais justos.

Ao retornarem para o Quilombo do Açude, as participantes levaram consigo não apenas novas memórias, mas também vínculos fortalecidos, saberes compartilhados e o compromisso de cultivar em suas vidas e comunidades os aprendizados construídos durante essa jornada.

Porque quando mulheres quilombolas se encontram para trocar experiências, cuidar umas das outras e fortalecer suas raízes, toda a comunidade floresce.

 

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